UMA DATA PARA COMEMORAR E REFLETIR

Proclamação da República

Entre fardas e ausências do povo

 

Todo 15 de novembro é lembrado como o dia em que o Brasil deixou de ser Império e se tornou República. O quadro tradicional é conhecido. Marechal Deodoro da Fonseca à frente das tropas, a monarquia sendo derrubada e o país entrando na “era da cidadania”. Mas a história verdadeira é mais densa e bem menos heroica.

A Proclamação da República, ocorrida em 1889, não foi um movimento popular. Não houve multidões exigindo o fim do Império. Ao contrário, a maior parte da população brasileira sequer sabia o que estava acontecendo.

A elite dos cafeicultores, especialmente os grandes proprietários de São Paulo e Minas Gerais, estavam insatisfeitos com as políticas do Imperador Dom Pedro II. A Abolição da Escravidão, em 1888, assinada pela Princesa Isabel, colocou fim à mão de obra escravizada, mas não ofereceu qualquer política de compensação ou reorganização da produção agrícola. Os barões do café sentiram-se traídos e abandonados.

Os militares, influenciados por ideias positivistas trazidas por Benjamin Constant e pela Academia Militar se sentiam subalternizados pela monarquia, que privilegiava oficiais mais antigos, muitos ligados à Guarda Nacional e às oligarquias regionais. Havia um desejo de maior protagonismo político e prestígio institucional.

Setores urbanos eram influenciados por ideais republicanos, inspirados pela Revolução Francesa e pelos Estados Unidos, mas que representavam uma minoria letrada, distante da vida cotidiana da maior parte do povo.

 

Deodoro da Fonseca proclamou a República, pressionado por interesses de bastidores. A Família Imperial foi simplesmente avisada de que deveria deixar o país. Trocou-se o regime político, mas não mudou a estrutura de poder.

A República que nasceu naquele 15 de novembro estava longe de ser democrática. Logo em seus primeiros anos, foi marcada por governos autoritários e pelo domínio das oligarquias, alternando o poder político entre São Paulo (cafeicultores) e Minas Gerais (pecuaristas e cafeicultores). A maioria da população vivia sem direitos sociais básicos, terra, educação ou participação política real.

A marca que atravessa o século XX  é clara: tratamos o poder como herança privada de grupos, e não como responsabilidade pública compartilhada. Hoje, no século XXI, vemos os reflexos desse início truncado. Uma democracia que ainda luta para ser plenamente participativa.

A Proclamação da República nos lembra que formas de governo podem mudar sem que o país se transforme de fato. Se queremos celebrar o 15 de novembro com sentido, é preciso entender que a República ainda é um projeto em construção. Não basta ter Constituição, Congresso e eleições. É preciso que mais brasileiros se sintam parte da vida pública, percebam que têm voz e que sua presença faz diferença.

A República não nasceu pronta.

Ainda não está pronta. E depende de nós.


Notice: ob_end_flush(): failed to send buffer of zlib output compression (1) in /home/copetro/www/wp-includes/functions.php on line 5464

Notice: ob_end_flush(): failed to send buffer of zlib output compression (1) in /home/copetro/www/wp-includes/functions.php on line 5464

Notice: ob_end_flush(): failed to send buffer of zlib output compression (1) in /home/copetro/www/wp-content/plugins/really-simple-ssl/class-mixed-content-fixer.php on line 107